terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Flores de Fogo - Pleistoceno da Indonésia

Uma noite de lua-cheia na Ilha de Flores, Indonésia, durante o Pleistoceno. Com a seleção natural ocorrendo em um habitat limitado e isolado (neste caso, o clássico exemplo de uma ilha), é comum que diferentes fatores levem animais grandes a ficarem cada vez menores ao longo de gerações, e animais pequenos a ficarem gigantes. Flores conta com interessantíssimos casos desses fenômenos, chamados de nanismo e gigantismo insular, respectivamente.
 
Há 50 mil anos, antes da chegada do Homo sapiens (possivelmente via embarcações), a ilha foi habitada por outro hominídeo peculiar, o "homem de Flores" (Homo floresiensis). A espécie demonstra o resultado do nanismo insular, e atingia apenas 1,1 m de altura. Na cena, um grupo se reúne em volta de uma fogueira para preparar sua refeição, um rato gigante Papagomys armandvillei (roedor de 45 cm, sem contar a cauda). Quando foram descritos seus primeiros fósseis e indícios conhecidos, acreditou-se que o H. floresiensis tivesse dominado o fogo, devido ferramentas queimadas. Posteriormente, uma datação mais precisa constatou que tais fósseis chamuscados são mais recentes, deixados pelo humano moderno, e que menos de 1% das ferramentas agora verdadeiramente atribuídas aos H. floresiensis de fato tiveram contato com o fogo. A história por trás da cena buscou manter o conceito desses hominídeos tendo uma experiência com as chamas, mesmo que não soubessem produzí-la: é narrado que, nessa ocasião, o grupo manteve aceso um pequeno foco de fogo causado por um raio que atingiu uma árvore naquele dia, tendo aprendido que aquela fascinante luz ardente é boa para se aquecer, espantar perigos à noite e, por que não, cozinhar carne. Alimentando o fogo por algumas horas com galhos e gravetos que foram prontamente coletados para aproveitar a rara ocasião, posteriormente eles trazem a chama para esse local onde planejam passar a noite, montando enfim uma fogueira maior. É interessante pensar que algumas comunidades dessa ou outra espécie tenham aprendido as utilidades do fogo mesmo sem dominá-lo, usufruindo apenas quando ele viesse de fontes externas em oportunidades raras.
 
Trazendo consigo o fogo e o Papagomys, já com a pelagem removida com o auxílio de ferramentas de pedra, o grupo escolheu um local razoavelmente aberto, cercado por poucas árvores pequenas, onde poderiam vigiar bem o entorno para passarem a noite. Algo chama a atenção dos Homo, quando eles pisam em estranhas estruturas circulares, coloridas e pegajosas que cobrem parte dessa área: plantas carnívoras Drosera burmanii. Outra planta também é logo percebida, e com entusiasmo, pois trata-se de uma especiaria muito bem-vinda para esse jantar especial: o manjericão, Ocimum basilicum. Os H. floresiensis são mostrados já tendo o conhecimento e o gosto pela qualidade culinária dessa erva, amassando alguns ramos com pedras para formar uma pasta.
 
Com o cair da noite e tudo preparado para que o grupo pudesse queimar sua caça e finalmente se alimentar, imprevistos indesejados acontecem. Um lagarto enorme, carnívoro e venenoso parte para cima dos Homo, podendo roubar o Papagomys ou, até mesmo, predar ou ferir letalmente um dos hominídeos. Observando a cena à primeira vista, o réptil pode parecer ainda maior do que realmente é, devido a pequenina altura dos H. floresiensis que estão próximos a ele, mas este é o dragão-de-komodo (Varanus komodoensis), espécie que ainda vive nos dias de hoje, chegando a 3 m de comprimento (ainda sim um impressionante marco entre os lagartos, sendo o maior da atualidade). Com sorte, apenas 2 Homo foram o bastante para afugentar o predador, arremessando pedras e, especiamente, o assustando com o fogo em uma galho. 
 
Este conflito mostra, por si só, ótimos exemplos de espécies ficando pequenas ou gigantes devido o isolamento em ilhas, e a fauna de Flores tem ainda mais ocorrências deste fenômeno. No fundo da imagem, ao centro, há um bando de proboscídeos diminutos, os Stegodon florensis insularis, com apenas 1,3 m de altura nos ombros, um contraste bem pronunciado com os elefantes atuais e a vasta maioria do outros proboscídeos fósseis (mas não foram os únicos proboscídeos "anões" que existiram). No canto direito, duas cegonhas de 1,8 m de altura, as Leptopilos robustus (gênero que ainda conta com espécies viventes, mas menores, como o marabu) observam de forma sinistra os hominídeos, talvez com a intenção de roubar sua caça. Estes pequenos proboscídeo e hominídeo, bem como esta grande ave, são as únicas espécies retratadas que foram extintas, e as outras (da fauna e da flora) ainda vivem nos dias de hoje.
 
Repousando nas pequenas árvores do centro, atrás da fogueira, estão presentes duas corujas do gênero Otus (uma em cada árvore). Na árvore mais próxima, uma Otus alfredi aproveita o fogo para procurar por alguma presa que ela possa avistar facilmente próxima da claridade; na árvore ao lado, uma Otus magicus oberva o fogo, mas mais afastada. No lado esquerdo, nos galhos mais altos de uma árvore seca, um bando de gralhas-das-flores, Corvus florensis, parece assistir com atenção e euforia a disputa do dragão-de-komodo com os homens de Flores. Já no lado direito, há contrastes e paralelos: no alto, em um galho de Eucalyptus urophylla localizado à frente no ambiente, ainda iluminado pela luz do fogo, um casal de Heleia dohertyi descansa tranquilamente em seu ninho com filhotes; mais afastado, no solo, outro casal de aves, as Megapodius reinwardt, está inquieto sobre seu ninho, uma gigantesca formação de matéria vegetal com 1,6 m de altura (com registros que passam de 3 m de altura e 7-9 m de largura). O que os preocupa é a aproximação de uma Malayopython reticulatus, a píton reticulada, serpente de 7 m (a mais longa da atualidade).
 
Bem à frente, no canto esquerdo, uma árvore abriga pequenos gigantes, onde duas lagartixas-tokai (Gekko gecko) de 30 cm se encaram numa disputa territorial; acima delas, uma mariposa Attacus inopinatus pousa e se mantém imóvel. No canto infeiror direito, uma Gasteracantha taeniata captura uma mosca em sua teia.

A flora ilustrada conta ainda com mais algumas flores, mostrando uma variedade de orquídeas: Arundina graminifolia crescem no canto esquerdo, atrás do dragão-de-komodo; Phaius tankervilleae se espalham no fundo, pelo centro e pelo canto direito; Bulbophyllum lobbii crescem sustentando-se no tronco das árvores.

Arte final para o projeto de João Macêdo, Tales of the Phanerozoic, concluindo a série de 12 capítulos que contou histórias ao longo dos períodos de nosso planeta. Confira aqui o capítulo do Pleistoceno, com a história completa por trás da cena e informações detalhadas sobre o ambiente e as criaturas.



quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Toninha (Pontoporia)

Toninha, também conhecida como franciscana (Pontoporia blainvillei), uma pequena espécie de golfinho que habita parte do litoral do Brasil, Uruguai e Argentina. Infelizmente, é um animal ameaçado de extinção.

Modelo em porcelana fria de uma fêmea adulta em escala 1:4.











segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Banquete no Litoral - Formação Pisco

Não muito longe da orla de uma praia no Peru durante o Mioceno Tardio, a busca por alimento e a luta para não virar comida movimentam a vida abaixo d'água. Esta fauna marinha conta não só com criaturas um tanto esquisitas aos nossos olhos, mas também com alguns gêneros e espécies que continuam vivendo nos dias de hoje.
 
À frente da cena, uma mãe Odobenocetops leptodon e seu filhote se alimentam de bivalves Anadara sp. que encontram no fundo. Este animal peculiar, aparentado aos atuais beluga e narval, chama a atenção por possuir o focinho mais curto entre os cetáceos, além de um par de pequenas presas voltadas para trás (nos machos, apenas um lado possuía uma presa extremamente longa, de até 1 m). Embora não seja conhecido por esqueletos completos, a proporção de suas vértebras indica um animal de 3 m de comprimento. A mãe nada cobrindo o filhote, como se instintivamente o protegesse de um perigo próximo. Fora os Anadara, os cetáceos acabam afugentando as vieiras Chlamys sp., que revelam uma habilidade rara entre bivalves: ao sinal de perigo, são capazes de nadar. 

O fundo também atrai alguns herbívoros, e preguiças-gigantes Thalassocnus natans se reúnem para devorar as gramas marinhas Zosteraceae. Estes xenartros de 2,5 m mostram mais uma adaptação a um nicho tão diferente entre seu grupo, que distoa das pequenas preguiças arborículas atuais. Perto deles, estrelas-do-mar Luidia magellanica atacam os ouriços-do-mar Loxechinus sp., e arraias Myliobatis sp. vasculham a areia atrás de bivalves. Pelo canto inferior esquerdo, alguns pepinos-do-mar Isostichopus fuscus se enterram na areia, mantendo apenas seus tentáculos expostos para coletar partículas de alimento. Alguns indivíduos estão fora da areia e sobre uma rocha, que também abriga um Octopus vulgaris (polvo comum), que se camufla. Distantes, no canto direito, crescem algumas algas Lessonia sp. e, cima delas, no canto superior mas mais afastada, há uma Architeuthis sp. (lula-gigante), sendo especulativa a sua presença neste período. Por algum motivo impulsionado por sua saúde debilitada, o grande cefalópode é mostrado deixando seu habitat em águas profundas e chegando até a costa (um fenômeno trágico, mas que ocorre até hoje e nos permite conhecer melhor este elusivo animal).
 
Enquanto se alimentam, os OdobenocetopsThalassocnus podem se tornar a próxima refeição de outro animal que se aproxima, vindo do mar aberto: um grupo de Acrophyseter robustus, caçadores de ~4,5 m. Esses cetáceos possuíam dentes grandes e fortes, indicando que caçavam presas de tamanho considerável como, por exemplo, outros mamíferos marinhos. Eles fazem parte da superfamília Physeteroidea, que inclui os cachalotes atuais - Acrophyseter e algumas outras espécies do Mioceno são, inclusive, chamadas de "cachalotes macropredadores", devido suas adaptações para abater animais grandes. 
 
O prato principal da cena, um espetáculo que atrai diversas bocas famintas, é um cardume de Sardinops sp. Esses peixes prateados de ~40 cm buscam a segurança nos números, mas enfrentam ataques simultâneos que confundem sua formação defensiva. Duas espécies de pinguins, a menor Spheniscus humboldti (pinguim-de-humboldt), vindos da praia, e a maior e de bico proporcionalmente mais longo e robusto, Spheniscus megarhampus, vindos do mar aberto, atacam em seus bandos e acabam coordenando por acaso suas investidas, que perfuram o cardume. Baleias Piscobalaena nana também tentam encher suas bocas filtradoras com os Sardinops, mas elas não são um predador tão aterrorizante para os peixes quanto se imaginaria pensando nas baleias atuais - essa espécie chegava a "apenas" 4-5 m. O clássico caçador marinho, o tubarão, marca sua presença com um Isurus oxyrinchus (tubarão-mako); entretanto, ele deixa a área antes que pudesse apanhar uma presa, tendo se assustado com um grande crocodiliano (que pode ter chegado a 8 m) que se aproximava logo abaixo, o Piscogavialis jugaliperforatus. Num movimento habilidoso, uma Acrophoca longirostris abocanha um Sardinops separado do cardume, e no céu algumas Pelagornis sp. (grandes aves de ~6 m de envergadura) esperam por sua oportunidade de capturar qualquer peixe que apareça na superfície.
 
Nova arte para o projeto Tales from the Phanerozoic, de João Macêdo. Confira aqui o capítulo sobre o Mioceno Tardio, com a história por trás da cena e informações detalhadas sobre o ambiente e as criaturas. 
 
 

 

quarta-feira, 29 de outubro de 2025

Smilodon

Smilodon populator, o famigerado "tigre-dentes-de-sabre". Como sua aparência sugere, Smilodon não foi um tigre propriamente dito, mas sim um membro de outro grupo de felinos, os macairodontíneos.

Este clássico animal da pré-história habitou as Américas durante o Pleistoceno e Holoceno, tendo vivido também no Brasil (de onde foram conhecidos, inclusive, seus primeiros fósseis). Sendo a maior e mais robusta espécie do gênero, S. populator chegou a aproximadamente 1,2 m de altura nos ombros, e teve um crânio de quase 40 cm.

Apesar de ser ter sido nomeado em 1842, foi apenas depois de praticamente 100 anos, em 1941, que se publicou um artigo com a descrição de um esqueleto completo de S. populator, estabelecendo então sua anatomia e proporções um tanto diferentes dos grandes felinos atuais.

Porcelana fria, escala 1:10.












segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Campos da Patagônia - Formação Collón Curá

Patagônia, Argentina, durante o Mioceno Médio. Um ambiente quente e de áreas abertas, com poucas árvores e coberto de vegetação rasteira como, por exemplo, as ilustradas gramíneas e flores Amaranthaceae e Asteraceae. 

Depois da Era dos dinossauros, mais uma vez o topo da cadeia alimentar é ocupado por um grande terópode terrestre: Kelenken guillermoi, o maior dos Phorusrhacidae, ou "aves do terror". Tal alcunha não é exagero, pois com um crânio de ~70 cm armado com um bico curvo e afiado, mais de 2 m de altura, garras poderosas e ossos da perna que sugerem velocidade e agilidade altas para uma ave deste porte, Kelenken de fato instaurava o terror para qualquer animal que ele visse como alimento. Dois indivíduos aparecem na cena, cercando individualmente (não estão cooperando) suas presas em potencial, os macrauquenídeos Theosodon sp., que chegam a 2 m de comprimento e quase 1 m de altura nos ombros. Esses mamíferos com aspecto de camelo possivelmente exibiam um tecido nasal complexo semelhante a uma "tromba", mas incapaz de agarrar alimento (não uma probóscide verdadeira, mas sim uma "prorhiscis", similar a animais como alces, saigas, elefantes-marinhos entre outros, o que é inferido para seu parente Macrauchenia). O bando se alimenta entre as árvores Nothofagus sp., e usará essa área de mata mais fechada para tentar despistar as aves predadoras, onde elas perdem a vantagem da corrida em campo aberto.

Ainda na árvore mais próxima, uma mãe Neotamandua australis, com seu filhote agarrado à suas costas, se pendura no tronco. Apesar deste gênero ser considerado próximo do atual Myrmecophaga (tamanduá-bandeira), o fóssil encontrado na Formação (um úmero) mostra certa similaridade ao Tamandua (tamanduá-mirim e tamanduá-do-norte), indicando que possa se tratar de algum outro gênero (é considerado que Neotamandua, como um todo, precisa de uma revisão em suas espécies).

No canto inferior direito, à frente, alguns pequenos animais disputam uma toca. Dois notoungulados com aspecto de roedor, Protypotherium colloncurensis (espécie um tanto grande e robusta para seu gênero), querem tomar a toca cavada por um Peltephilus pumilus, um curioso tatu com chifres. Ele assusta vários percevejos Panstrongylus sp. que moram no buraco, fazendo-os fugir para fora. Focados na própria briga, os Protypotherium e especialmente o Peltephilus não percebem um predador chegar perigosamente perto por trás, um Patagosmilus goini - um marsupial dentes-de-sabre, parente do Thylacosmilus. Os notoungulados, estando de frente para ele, o notarão a tempo e correrão para longe, enquanto o tatu será atacado mas, graças a sua armadura, conseguirá escapar da mordida inicial e recuará para sua toca. Outro Patagosmilus aparece do outro lado da cena, no canto esquerdo entre o lago e a outra abertura da toca, importunando e tentando atacar um Neosteiromys tordillense, ouriço gigante. Este Neosteiromys de Collón Curá é conhecido de alguns dentes menores que os da espécie tipo, N. bombifrons, e sua inclusão no gênero é incerta.

Também no canto direito, um grupo de Astrapotherium guillei se refresca na água. Esses mamíferos de grande porte, com cerca de 4 m, chamam a atenção com suas grandes presas (maiores nos machos) e tromba que deveria os ajudar a coletar alimento. Na margem, vários besouros-rola-bosta se aproveitam das fezes que o bando deixou antes de entrar na no lago. Atrás deles, algumas árvores Podocarpaceae crescem nesta área próxima d'água.

Nova arte para o projeto Tales from the Phanerozoic, de João Macêdo. Confira aqui o capítulo sobre o Mioceno Médio, com a história por trás da cena e informações detalhadas sobre o ambiente e as criaturas.






segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Liopleurodon

O pliossauro Liopleurodon ferox, que nadou nos mares europeus durante o Jurássico Médio e Tardio.

É impossível mencionar este animal sem lembrar de sua participação no documentário de 1999 "Walking With Dinosaurs", que o mostrou como um titã de 25 m. O grande tamanho era baseado em estimativas e suposições sobre fósseis fragmentários que indicariam animais de até 20 m, além da premissa de que os maiores entre todos os plesiossauros nem mesmo tivessem sido preservados/encontrados. Hoje reconhece-se que tais estimativas são exageradas, e os fragmentos sequer podem ser atribuídos ao Liopleurodon. Dessa forma, a espécie é hoje mais precisamente estimada com um crânio de ~1,5 m e cerca de 6 m de comprimento total, com os maiores espécimes talvez chegando a 8 m.

Porcelana fria, escala 1:35.