quarta-feira, 17 de março de 2021

Wetlands de Crato - Um paleoambiente revisado

Reconstrução da nova interpretação para o paleoambiente da Formação Crato, Cretáceo Inferior do Nordeste brasileiro, segundo a recém-publicada pesquisa de Alexandre Ribeiro e colegas.

A equipe analisou a literatura à cerca dos fósseis e tentativas anteriores de interpretar esse ambiente, investigou novos fósseis do Konservat-Lagerstätte (depósito com preservação excepcional dos organismos e/ou de seus traços, como tecido mole) Crato, sua distribuição estratigráfica e ecológica segundo a vida desses organismos e seus paralelos modernos em parentes viventes. Diferente das muitas hipóteses anteriores para o paleoambiente Crato, como por exemplos um lago raso e eutrófico, um mangue ou um grande lago profundo, o estudo de Ribeiro e colegas aponta para Crato como uma wetland rasa, lacustre e de alta variação sazonal em um clima semi-árido. Esse ambiente não possui muitos análogos atuais, sendo o mais notável o Lago Chade, na África.

A imagem ilustra os 4 ecótonos inferidos para o paleoambiente (xérico, mesófilo, helófito e aquático) durante 3 condições sazonais que ditam o nível da água. A localização dos organismos reflete sua distribuição nos habitats (exceto para os tetrápodes representados, que não necessariamente se limitam ao ecótono ou estação onde aparecem na imagem), prosperando ou perecendo conforme a cheia e a seca. No cenário aparece também um grande incêndio, fenômeno que impacta diretamente o sedimento devido a queima da matéria orgânica.

Com muito prazer realizei a ilustração a convite e supervisão de Alexandre para acompanhar o artigo!

Acesse abaixo a publicação para conferir a metodologia da pesquisa, a descrição detalhada do paleoambiente e a ilustração em alta resolução entre os materiais suplementares:

Ribeiro, A. C., Ribeiro, G. C., Varejão, F. G., Battirola, L. D., Pessoa, E. M., Simões, M. G., Warren, L. V., Riccomini, C., & Poyato-Ariza, F. J. (2021). Towards an actualistic view of the Crato Konservat-Lagerstätte paleoenvironment: A new hypothesis as an Early Cretaceous (Aptian) equatorial and semi-arid wetland. Earth-Science Reviews, 216, 103573. https://doi.org/10.1016/j.earscirev.2021.103573



Tags dos organismos presentes: Protananas lucenae, Schenkeriphyllum glanduliferum, Endressinia brasiliana, Cariria orbiculiconiformis, Cearania heterophylla, Cratonia cotyledon, Welwitschiaprisca austroamericana, Welwitschiostrobus murili, Welwitschiophyllum brasiliense, Ephedra paleoamericana, Brachyphyllum, B. castilhoi, B. insigne, B. obesum, Araucariaceae, Araucarites vulcanoi, Araucaria cartellei, Araucariostrobus sp., Duartenia araripensis, Tomaxellia biforme, c.f. Williamsonia, Ptilophyllum sp., Frenelopsis sp., Pseudofrenelopsis sp., Ruffordia goeppertii, Araripia florifera, Hexagyne philippiana, Cratosmilax jacksoni, Gondwanagaricites magnificus, Cratolirion bognerianum, Spixiarum kipea, Schizoneura sp., Equisetum sp., Isoetes sp., Klitzchophyllites flabellatus, Pluricarpellatia peltata, Jaguariba wiersemana, Iara iguassu, Stromatolites, Microbial mats, Polygonal mats, Dastilbe crandalli, Susisuchus anatoceps, Tupandactylus imperator, Cratoavis cearensis, Tetrapodophis amplectus, Ludodactylus sibbicki, Lacusovagus magnificens, Coelurosauria indet.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Descobertas renascendo das cinzas - Fósseis de Cervidae do Museu Nacional

Resgatando tesouros perdidos do Museu Nacional, paleontólogos do Laboratório de Mastozoologia - UNIRIO estudaram fósseis de Cervidae registrados por meio de descrições e fotografias tiradas antes do incêndio de 2018, e puderam redescrever e revisar esses espécimes e sua taxonomia.

Novas descobertas incluem a relevância da morfologia dos dentes para a taxonomia de cervídeos, uma distribuição mais ampla do gênero Morenelaphus, um animal indeterminado que seria o maior Cervidae até agora conhecida da América do Sul, e as implicações da presença de veados gigantes para o clima e o ambiente da região onde viviam durante o Pleistoceno.

A imagem abaixo mostra o Morenelaphus (à esquerda) e o Cervidae indet. (à direita). Muito obrigado aos paleontólogos do LAMAS - UNIRIO por encomendar e supervisionar essa ilustração!

Confira a pesquisa:




terça-feira, 1 de setembro de 2020

Peso-pena a multi-tonelada - Revisando a massa dos dinossauros

Em sua pesquisa recém-publicada, os paleontólogos Nicolás Campione e David Evans revisaram a acurácia e a precisão nas técnicas utilizadas ao longo dos anos para estimar a massa dos dinossauros.

No geral, há duas abordagens principais empregadas: o uso de modelos tridimensionais do animal para se chegar à densidade volumétrica (no artigo, método abreviado como "VD" para "volumetric-density"), mais utilizada em grupos extintos, como os próprios dinossauros não-avianos, e o cálculo comparativo a partir de medidas dos ossos das espécies extintas com as atuais (método abreviado como "ES" para "extant scaling"), mais comum em animais extintos de grupos viventes, como aves e mamíferos.

Apesar de diferentes, o artigo mostra que ambos os métodos apontam, na maioria das vezes, para resultados consistentes - VD oferecendo mais precisão, e ES acurácia. Em uma entrevista à Phys.org, o Dr. Campione ressalta que "as abordagens são mais complementares do que antagônicas". 

O estudo é importante pois a massa do animal influencia diretamente seu estilo de vida, sua dieta, sua locomoção, seu metabolismo, seu crescimento e ainda mais aspectos. Quanto melhor entendermos e pudermos estimar a massa, melhor conheceremos essas criaturas.

O artigo também lista dinossauros não-avianos, separados em tabelas de 10 maiores e 10 menores quadrúpedes e bípedes, e calcula sua massa. A imagem abaixo seleciona alguns desses dinossauros e os reconstrói em vida, ilustrando a variedade de formas e tamanhos do grupo ao longo do Mesozoico.

Meus agradecimentos ao convite do Dr. Campione para realizar essa reconstrução para a cobertura do artigo na imprensa!


Da esquerda para a direita: Segnosaurus, membro dos esquisitos Therizinosauria; Um clássico entre os grandes dinossauros, Apatosaurus; Magyarosaurus, um saurópode diminuto; Deinocheirus, grande terópode de características incomuns; Patagotitan, gigantesco Titanosauria e um dos maiores dinossauros; Struthiosaurus, um anquilossauro pequenino; Saichania, dinossauro blindado de porte médio; O famoso e único Tyrannosaurus; Tenontosaurus, ornitópode médio-grande de cauda longa; Montanoceratops, um ceratopsiano primitivo.
No quadro ampliado: O minúsculo Iberomesornis, do tamanho de um pardal; Hongshanornis, das espécies na imagem, o parente mais próximo das aves modernas; Longirostravis e seu curioso focinho longo.
Na silhueta humana, o próprio Dr. Campione.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Proganochelys

Proganochelys quenstedti, uma "proto-tartaruga" de aproximadamente 1 m de comprimento. A espécie é conhecida do Triássico Superior da Alemanha, onde conviveu, por exemplo, com o dinossauro Plateosaurus e o temnospôndilo Gerrothorax. Outras espécies do gênero viveram onde hoje estão a Thailândia (P. ruchae) e a Groenlândia (P. sp).

O animal definitivamente foi bem protegido. Além do casco, possuía também uma verdadeira armadura de osteodermos no pescoço, cauda (incluindo em sua ponta uma clava) e membros. Osteodermos do pescoço e da cauda em especial projetam múltiplos espinhos (sempre 3 espinhos para cada osteodermo da cauda, formando uma sequência de tríades; a clava é, provavelmente, resultado da fusão de 3 tríades). É interessante apontar também que, apesar de possuir um bico, Proganochelys ainda apresentava dentes no palato, característica primitiva vista nos ancestrais das tartarugas modernas e seus parentes.

P. quenstedti é conhecida de espécimes bem completos, o que permite conhecê-la bem. Sua osteologia foi detalhadamente descrita por Eugene F. Gaffney e, sobre seu estilo de vida, trabalhos interessantíssimos foram publicados. Scheyer & Sander investigaram a histologia de tartarugas modernas e parentes extintos, e a comparação apontou hábitos terrestres para Proganochelys (ao contrário das noções anteriores de vida aquática/semi-aquática); sobre a marcante capacidade de quelônios guardarem o pescoço e cabeça na carapaça, Ingmar Werneburg e colegas apontaram que Proganochelys conseguiria retrair o pescoço lateralmente e posicionar a cabeça sob a borda do casco, ainda que o movimento fosse simples se comparado à curva em "S" que tartarugas modernas realizam com o pescoço (tanto as Pleurodira quanto as Cryptodira).

Porcelana fria, escala 1:4.













sexta-feira, 6 de março de 2020

Captorrinídeos da Formação Pedra de Fogo

Um Moradisaurinae indeterminado e alguns Captorhinikos sp. se alimentam e descansam em meio a mata úmida da Formação Pedra de Fogo, Permiano inferior onde hoje está o Piauí.

Esses répteis tratam-se dos mais antigos tetrápodes herbívoros conhecidos do Gondwana, além de marcarem o primeiro registro de captorrinídeos na América do Sul.

Tive o prazer de realizar a ilustração a convite e supervisão do Dr. Juan Carlos Cisneros! Muito obrigado e parabéns à toda a equipe pela fantástica pesquisa!

Confira o artigo para saber mais sobre os Captorhinidae do Nordeste brasileiro:
Cisneros JC, Angielczyk K, Kammerer CF, Smith RMH, Fröbisch J, Marsicano CA, Richter M. 2020. Captorhinid reptiles from the lower Permian Pedra de Fogo Formation, Piauí, Brazil: the earliest herbivorous tetrapods in Gondwana. PeerJ 8:e8719 doi.org/10.7717/peerj.8719



quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Prestosuchus

Prestosuchus, um grande predador da pré-história brasileira - seu crânio, junto da mandíbula, atingia 88cm. Viveu durante o Triássico Médio onde hoje está o Rio Grande do Sul.

P. chiniquensis foi descrito, junto de outros animais da Formação Santa Maria,  por von Huene em 1942. Desde então, novos espécimes foram descobertos e estudados, como por exemplo o mencionado grande crânio e um indivíduo menor mais completo. Já se constatou, inclusive, que diferentes espécimes mostram formas juvenis de Prestosuchus, nos fornecendo informação sobre o crescimento desse impressionante réptil.

O modelo retrata o animal arqueando os membros e abrindo a boca, uma postura comunicativa que poderia impressionar uma fêmea ou assustar um rival.

Porcelana fria, escala 1:20.













sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Quando brasileiros caçavam proboscídeos

Humanos abatendo um filhote de Notiomastodon platensis. Pleistoceno onde hoje está a região arqueológica Lagoa Santa Karst, em Minas Gerais, Brasil.

A cena se baseia na descoberta do crânio de um Notiomastodon de cerca de 1 ano de idade apresentando uma perfuração causada por um artefato humano, onde a natureza e o local da perfuração apontam que o golpe foi desferido para matar o animal. Trata-se de evidência inédita de que humanos caçaram proboscídeos na América do Sul.

É interessante notar que a mulher ilustrada é baseada na reconstrução do crânio de "Luzia", um dos mais antigos e importantes fósseis humanos sul-americanos. Ela se prepara para golpear o filhote de Notiomastodon que caído sobre seu lado direito, posição inferida pela direção da perfuração.

A ilustração foi realizada em 2016 a convite e supervisão de Leonardo Avilla e Dimila Mothé. Foi um prazer ilustrar esse importante achado! Muito obrigado!

Confira a pesquisa no artigo:
Mothé, D., Avilla, L. S., Araújo-Júnior, H. I., Rotti, A., Prous, A., & Azevedo, S. A. K. (2020). An artifact embedded in an extinct proboscidean sheds new light on human-megafaunal interactions in the Quaternary of South America. Quaternary Science Reviews, 229, 106125. https://doi.org/10.1016/j.quascirev.2019.106125