quarta-feira, 4 de março de 2026

A mandíbula do rio - Tanyka amnicola

Interessantíssima descoberta vinda da Formação Pedra de Fogo, Permiano Inferior do nordeste brasileiro: Tanyka amnicola, um tetrápode basal que extende o registro de uma linhagem primariamente conhecida do Carbonífero, e mostra adaptações a um nicho peculiar que explorou uma alimentação herbívora ou onívora.

O nome "Tanyka" vem do guaraní, onde tal palavra significa "mandíbula"; do latim, "amnicola" quer dizer "que vive no rio". Os fósseis são de mandíbulas, em sua maioria, de aproximadamente 17 cm (uma delas sendo 25% maior), e o animal deveria chegar a ~1 m de comprimento.

Conhecido à partir de 9 mandíbulas, Tanyka possuía os dentes voltados para fora, como se a boca fosse torcida. O que parecia uma deformação por ferimento ou pela fossilização, se mostrou uma característica da espécie conforme mais e mais espécimes foram encontrados, alguns muito bem preservados. O formato estranho provevelmente se deve a um leve giro que a mandíbula faz em seu próprio eixo ao abrir da boca. A parte posterior da mandíbula também tinha uma curiosa ponta triangular apontando para fora.

Além da fileira de dentes principais, ao lado dela, por dentro, haviam notáveis placas repletas de dentículos que deveriam agir como uma lixa. Com elas, Tanyka possivelmente raspava e triturava algas, plantas e/ou invertebrados de carapaça dura, sendo um herbívoro ou onívoro. Isso é algo altamente raro entre anfíbios, extintos ou atuais, o que nos mostra como esses tetrápodes antigos exploraram nichos inusitados.

Tanyka não é um parente próximo de anfíbios temnospôndilos contemporâneos do Permiano, mas faz parte de um grupo de tetrápodes basais que originaram no Carbonífero, os bafetídeos. Um sobrevivente perdido, comparado ao que o ornitorrinco representa para os mamíferos atualmente.

A convite do Dr. Juan Cisneros, tive o prazer de realizar a ilustração para a divulgação da pesquisa! Na cena, Tanyka se alimenta de algas e conchostráceos que se escondem entre elas.

Confira o artigo: Pardo, J. D., Marsicano, C. A., Smith, R. M. H., Cisneros, J. C., Angielczyk, K. D., Fröbisch, J., Kammerer, C. F., & Richter, M. (2026). An aberrant stem tetrapod from the early Permian of Brazil. Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences. DOI: doi.org/10.1098/rspb.2025.2106

Algumas matérias sobre a descoberta:



Nenhum comentário:

Postar um comentário