sábado, 16 de julho de 2022

Gigantes do Pântano - Carbonífero da Escócia

Visão dos pântanos que percorriam o território que se tornaria a Escócia. Carbonífero Inferior, idade Viseiana. 

O ambiente foi o lar de gigantes, mas de tipos diferentes do que estamos acostumados hoje em dia: artrópodes alcançavam tamanhos extraordinários, e as florestas eram majoritariamente formadas por enormes licopódios arbóreos. Licopódios são um dos grupos mais antigos de plantas vasculares, e se reproduzem por esporos ao invés de sementes. Em contraste a esses titãs do Carbonífero, contam apenas com espécies viventes pequenas.

Entre as plantas da cena, a mais abundante é Lepidodendron, licopódio com tronco de aparência escamosa que chagava a 50m de altura. As demais árvores ilustradas são o outro licopódio Sigillaria, algumas cavalinhas gigantes Calamites e a gimnosperma Cordaites. Plantas menores são a "samambaia-com-sementes" (que não se tratam de uma samambaia. apesar do nome popular) Medullosa e a cavalinha Sphenophyllum.

Um dos maiores artrópodes conhecidos, o milípede Arthropleura, aparece cruzando um tronco de Lepidodendron caído. As maiores espécies desse provável herbívoro poderiam chegar a 2m de comprimento. Também no tronco está o pequeno (com pouco mais de 40cm) temnospôndilo Balanerpeton.

Outro artrópode gigante, desta vez um predador, está caçando à direita da cena: um Pulmonoscorpius, escorpião que poderia alcançar 70cm, agarra um Westlothiana pela cauda. Este pequeno animal com aspecto de lagarto se trata de um parente dos primeiros amniotas.

Além desse escorpião verdadeiro, um dos popularmente chamados "escorpiões-do-mar" também é visto saindo da água ao fundo do ambiente. Um Hibbertopterus, euriptérido (parentes próximos dos aracnídeos) que passava dos 1,5m, se arrasta desajeitadamente para a terra firme - hábito registrado em traços fósseis, mostrando que o animal poderia sobreviver algum tempo fora da água. Também na água, o "proto-tetrápode" Crassigyrinus emerge pra observar a superfície, e o tubarão Tristychius marca presença no canto esquerdo, com suas barbatanas dorsais dotadas de um espinho cada.

Nova arte para o projeto Tales from the Phanerozoic, de João Macêdo. Confira aqui o capítulo sobre o Carbonífero, com a história por trás da cena e informações detalhadas sobre o ambiente e as criaturas.



 

sexta-feira, 29 de abril de 2022

Lusitadischia

Importante adição aos insetos pré-históricos de Portugal: Lusitadischia sai, ortóptero da família Oedischiidae, do Carbonífero Superior. 

O novo táxon é conhecido por uma asa dianteira, e seu raro fóssil demonstra que a diversidade de insetos portugueses do Carbonífero tem sido subestimada por causa da dificuldade em fossilizar e preservar esse tipo de animal. 

Vale notar que seu nome é dedicado ao paleontólogo Artur Sá, por toda a sua contribuição à área.

A sugerida aparência para o inseto em vida é baseada na reconstrução de Martynov (1938) para Metoedischia, parente próximo contemporâneo de Lusitadischia. Tive o prazer de realizar a ilustração a convite de Pedro Correia para a divulgação da pesquisa na imprensa! 

Confira o artigo descrevendo Lusitadischia sai:




quinta-feira, 21 de abril de 2022

Vida e morte no Devoniano - Cleveland Shale

Cleveland Shale, Devoniano Superior (Fameniano) onde se tornaria Ohio, nos EUA.

Em águas rasas, uma grande e já idosa Titanichthys clarki aparece dando à luz um filhote. Este gigante filtrador foi um dos maiores peixes placodermos, alcançando tranquilamente 6m. 

A movimentação debilitada da fêmea e o cheiro de sangue atraem atenção indesejada: um trio de "pequenos" (cerca de 2m) Cladoselache sp., holocéfalos (parentes das modernas quimeras) semelhantes a tubarões, se voltam ao filhote. O tamanho do recém-nascido possivelmente já desencorajaria esses predadores de animais pequenos, mas de qualquer forma os 3 são espantados por um Gorgonichthys clarki que se aproxima pela direita. Esse placodermo "dentes-de-sabre", também de grandes dimensões (talvez 5m), daria preferência a presas menores e sem carapaça, se interessando mais pelos "tubarões" do que por outros placodermos.

À distância, um perigo maior também notou a fragilidade da mãe e do filhote: um Dunkleosteus terrelli, possivelmente o maior placodermo (também por volta de 6m). O tamanho e a "armadura" da Titanichthys não devem assegurá-la contra esse carnívoro de grande porte e mordida esmagadora.

Outra espécie de Titanichthys, a menor T. agassizi, é vista se alimentando em um pequeno grupo distante. Também aparecem conodontes, amonóides e alguns corais (rugosos e tabulados), estes últimos muito presentes ao longo do Devoniano, mas raros nesta cena do final do Período. Organismos microbianos, representados aqui por estromatólitos e uma lama negra de tapetes microbianos, estavam tomando o lugar dos animais na formação de recifes, devido a água sem oxigênio do fundo.  

Nova arte para o projeto Tales from the Phanerozoic, de João Macêdo. Confira aqui o capítulo sobre o Devoniano, com a história por trás da cena e informações detalhadas sobre o ambiente e as criaturas.



domingo, 20 de fevereiro de 2022

Mares do Cambriano - Wheeler Shale

Wheeler Shale, Cambriano Médio onde hoje fica Utah, EUA. Nesse primeiro período do Eon Fanerozóico, a diversidade de vida na Terra explodiu, trazendo seres com formas curiosas e diferentes do que estamos acostumados a ver hoje em dia.

O maior animal da cena (com "gigantes" 30cm de comprimento) se trata de um Peytoia nathorsti, parente do famoso Anomalocaris e, assim como ele, o superpredador do ambiente. Sua presença assusta alguns conodontes Hertzina sp. no canto superior direito, embora estes não sejam sua refeição preferida (Peytoia preferiria presas maiores e bênticas). 

No canto inferior direito, a cianobactéria Morania forma um tapete que cobre o fundo e atrai alguns Wiwaxia corrugata, parentes próximos dos moluscos (talvez moluscos em si) com aparência blindada e espinhosa. Um indivíduo juvenil aparece na cena, ainda desprovido dos "espinhos". Também sobre o tapete e nas rochas próximas estão um par de trilobitas Asaphiscus wheeleri e algumas Naraoia compacta, parentes próximos mas não trilobitas verdadeiras. Outra trilobita, a muito abundante Elrathia kingii, parece no primeiro plano, canto inferior esquerdo, e com diversos indivíduos espalhados nas rochas mais afastadas. No fundo arenoso ainda é visto o verme escavador Ottoia prolifica.

Outros organismos curiosos são as esponjas, aqui representadas por Choia carteri, com aparência de um disco espinhoso e suspenso do fundo por talos, Chancelloria pentactata com seu aspecto de cacto e a esponja menor Diagoniella sp. Além das esponjas, ainda aparecem alguns Sphenoecium wheeleri (primeiro plano e rochas superiores), que são Pterobranchia (invertebrados coloniais) que formam construções de tubos, e a alga Marpolia sp., que cobre algumas rochas com suas mechas filamentosas.

A ilustração é a primeira produzida para o projeto de João Macêdo, que contará histórias sobre a vida na Terra ao longo dos períodos do Eon Fanerozóico. Confira seu projeto, Tales from the Phanerozoic, onde os novos capítulos serão adicionados futuramente.




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Caminhando com... Dinossauros!

Durante o Cretáceo Superior onde hoje fica Alberta, Canadá, um pequeno bando de Edmontosaurus regalis cruza as margens de um rio, deixando para trás sua trilha de pegadas. Também marcando sua presença no local estão troodontídeos indeterminados, cuja agitação chama a atenção de um dos ornitópodes, e um Albertosaurus que observa os herbívoros de longe.

A ilustração representa a produção de rastros na Formação Wapiti, mostrando as abundantes pegadas Hadrosauropodus, provavelmente produzidas pelo ornitópode E. regalis, e variadas pegadas de terópodes, incluindo as maiores tridátilas (marcando 3 dedos), atribuíveis a tiranossauros, e as didátilas (2 dedos) provavelmente deixadas por troodontídeos.
Não presentes na imagem, mas igualmente notáveis, são rastros de possíveis terópodes ornitomimídeos e pterossauros azhdarquídeos.

A convite e supervisão de Nathan Enriquez e demais autores, tive a honra de ilustrar a cena para acompanhar seu artigo!

Confira a pesquisa na íntegra:


domingo, 30 de janeiro de 2022

Lesleya ceriacoi - Uma grande planta redescoberta

Lesleya ceriacoi, nova espécie de gimnosperma primitiva conhecida do período Carbonífero Superior onde hoje fica Portugal.

Após passarem mais de 100 anos guardados na coleção do Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto (MHNC-UP), seus fósseis foram agora redescobertos e enfim estudados, revelando folhas de tamanho considerável e adaptadas à aridez. Tais adaptações são inovadoras entre a flora de ambientes áridos de seu local e tempo, e trazem implicações sobre sua evolução em meio as mudanças climáticas do período.

O epíteto específico ceriacoi homenageia o biólogo Luis Ceríaco, atual curador-chefe do MHNC-UP e descobridor de diversas novas espécies atuais, em especial répteis africanos.

A convite e supervisão de Pedro Correia e demais autores, tive o prazer de realizar as reconstruções da nova espécie! 

Confira o artigo descrevendo a Lesleya ceriacoi:


À esquerda a reconstrução das folhas fósseis, e à direita uma provável aparência da planta completa.



terça-feira, 5 de outubro de 2021

Nadando pela História de tubarões

Ilustração nadando através de 83 milhões de anos de história dos tubarões.

Os tubarões das ordens Lamniformes e Carcharhiniformes tiveram sua história evolutiva, do final do Mesozóico até o presente, investigada. A diversidade moderna desses grupos é discrepante, com 15 espécies de Lamniformes e 290 de Carcharhiniformes, mas isso era bem diferente no passado.
No estudo, mais de 3.000 dentes de tubarão foram analisados, observando como a dieta moldou a evolução desses 2 grupos. Eventos de mudança climática e do nível do mar também ditaram a evolução de seus dentes, afetando a ascensão e o declínio desses tubarões.

Tive o prazer de produzir esta imagem a convite e supervisão de Mohamad Bazzi e Nicolás Campione para a cobertura da imprensa sobre sua nova pesquisa!




terça-feira, 10 de agosto de 2021

Cheirolepis

Um dos mais antigos peixes de nadadeiras raiadas, Cheirolepis trailli foi um predador do Devoniano. Espécies do gênero são conhecidas da Europa e da América do Norte.

Seus olhos, grandes e com ampla mobilidade horizontal graças a longos músculos, mostram que esse caçador dependia bastante da visão. Possuía numerosos dentes afiados e uma imensa abertura da boca devido um elaborado cinetismo craniano, permitindo assim a captura de presas com até 2/3 de seu próprio tamanho. Seu principal alimento deve ter sido os então abundantes acantódeos.

O modelo recebeu apenas tons de cinza a pedido do cliente, para que ele pudesse aplicar a pintura e olhos de vidro na peça.

Porcelana fria, escala 1:1. 













terça-feira, 6 de julho de 2021

Sudamericungulata: um novo ramo de Afrotheria Sul-americanos

Em sua pesquisa recém publicada, os paleontólogos Leonardo Avilla e Dimila Mothé realizaram a até então mais abrangente análise filogenética com mamíferos ungulados nativos da América do Sul ("SANUs", na sigla em inglês para "South American native ungulates") e outros Eutheria, trazendo importantes resultados para sua classificação. A filogenia desses animais foi melhor esclarecida, e uma nova linhagem de ungulados nativos sul-americanos foi identificada dentro da Afrotheria: a Sudamericungulata.

Os SANUs incluem os Astrapotheria, Didolodontidae, Litopterna, Notoungulata, Pyrotheria e Xenungulata. Sua classificação costuma ser um tanto complicada, pois geralmente a amostragem dos grupos analisados não é ideal (nunca abrangendo todas as linhagens de uma vez). Tradicionalmente, todos têm sido agrupados como Meridiungulata, como animais mais próximos entre si do que de outros ungulados. O novo trabalho, ao analisar filogeneticamente características morfológicas de integrantes de todos os grupos de SANUs juntos + outros Eutheria, mostra que Meridiungulata não é natural. Uma de suas linhagens, a agora reconhecida Sudamericungulata (Astrapotheria, Notoungulata, Pyrotheria e Xenungulata), se encontra entre os Afrotheria, enquanto o outro ramo, os Panameriungulata (Didolodontidae e Litopterna), são mais próximos de mamíferos Laurasiatheria.

Dentro dos afrotérios, os sudamericungulados são mais próximos dos Hyracoidea. Pela idade dos membros mais antigos conhecidos de cada um desses grupos, seu último ancestral em comum data do Paleoceno. Esse resultado é possível e apoiado pelo modelo paleogeográfico Atlantogea, onde uma cadeia de ilhas formada do Cretáceo Superior ao Eoceno, constituída em parte pela Elevação do Rio Grande e a Cordilheira de Walvis, conectava a América do Sul à África durante esse período.

Na imagem, a América do Sul e a África são mostradas com a paleogeografia de 50 MA, durante o Eoceno Inferior, incluindo a rota de ilhas do modelo Atlantogea conectando os Continentes. Os Sudamericungulados ilustrados são Astrapotherium burmeisteri, Carodnia vierai e Toxodon platensis, e os outros Afrotérios são Arsinoitherium zitteli e espécies viventes de damão (Procavia capensis), elefante (Loxodonta africana) e tenreque (Hemicentetes semispinosus).

A convite e supervisão dos autores Leonardo e Dimila, tive o prazer de produzir a ilustração para a divulgação da pesquisa! 

Confira, no link abaixo, o artigo na íntegra:

Pintura digital, Wacom Intuos + Photoshop CS5.



sábado, 3 de julho de 2021

Aegirocassis

O radiodonte gigante Aegirocassis benmoulai, do Ordoviciano Inferior de onde hoje se encontra o Marrocos.

Entre os Radiodonta, Aegirocassis foi um paralelo daquilo que as baleias são para os mamíferos: um integrante grandalhão, o maior do grupo, que se alimenta por filtração. Com a notável carapaça sobre sua cabeça, o animal media cerca de 2 m de comprimento.

Os fósseis do animal mostram uma preservação fantástica, fossilizando seu corpo de maneira tridimensional e algumas partes delicadas em detalhes.

O 2 apêndices localizados à frente da cabeça eram adaptados para filtrar a água enquanto a criatura nadava. Eram segmentados em 7 partes, onde as 5 centrais possuíam um longo espinho ventral com aproximadamente 80 cerdas filtradoras cada. O 1º segmento (mais próximo da cabeça) era mais longo e tinha um espinho mais curto, semelhante a um pente, com pontas direcionadas para trás. É sugerido que o animal nadasse com os apêndices apontados para frente, filtrando alimento pela água, e dobrasse um desses membros para trás de forma que os espinhos e suas cerdas passassem pelo "pente" do apêndice oposto, transferindo para ele a comida coletada. O "pente" levava então o alimento para próximo da boca para que fosse sugado. Enquanto não coletava comida, Aegirocassis poderia nadar com os apêndices dobrados para baixo, com os espinhos alinhados na horizontal, para reduzir o arrasto na água. 

Os elementos da carapaça, um frontal e o que parece ser um par lateral de peças ovais, cobriam sua cabeça. O grande elemento frontal poderia ultrapassar 1 m de comprimento, dobrando o tamanho total do animal. Duas formas dessa carapaça central são conhecidas: uma como mostrado no modelo, com um par de extensões pontudas em suas margens, e outra com dois pares de extensões.

Seu corpo, fossilizado tridimensionalmente, mostra que cada lado era dotado de 2 fileiras de "abas" semelhantes a barbatanas, uma dorsal e uma ventral, cada uma com 10 abas. As dorsais parecem ter um papel de estabilização e direção, e as ventrais de propulsão. Tecido muscular associado a elas sugere que o animal teve ótimo controle sobre seus movimentos, proporcionando um nado ágil, ainda que não veloz - suas proporções e hidrodinâmica indicam um nadador de longas distâncias em velocidade constante.

Essa preservação excepcional das 2 fileiras de abas proporcionou uma visão importante para seu grupo, permitindo reavaliar espécimes de parentes como Hurdia e Peytoia e identificar elementos dorsais e ventrais com mais clareza. Dessa forma, esses animais também parecem ter possuído 2 fileiras ao invés de uma, o que era difícil de interpretar por fósseis achatados. Outros parentes mais distantes, como Anomalocaris, parecem de fato ter apenas uma fileira, sugerindo que parte do grupo perdeu as abas dorsais em algum momento.

Outro elemento interessante e bem preservado são suas bandas de "lâminas de cerdas", ou setal blades. Essas bandas se juntavam ao corpo perto da base das abas dorsais e cobriam o dorso do animal como arcos, sem se conectar a ele. Eram contínuas, diferente de como aparecem em radiodontes como Anomalocaris e Hurdia, onde são separadas ao meio. É provável que essas estruturas tivessem um papel respiratório.

A cabeça, infelizmente, não foi bem preservada, não sendo possível conhecer bem seu aspecto, os olhos e o aparato bucal. No entanto, um espaço livre entre os elementos da carapaça corresponde à posição dos olhos em outros radiodontes, sendo então muito provavelmente o local de onde se projetavam os olhos do Aegirocassis. Seu cone oral é ausente dos fósseis (ou pelo menos é raro, visto que partes isoladas são conhecidas, mas difíceis de atribuir a A. benmoulai), o que pode indicar que era frágil e menos enrijecido do que em outros Radiodonta. A ideia dessa fragilidade ou redução é reforçada pela abundância de indivíduos e outros elementos (incluindo partes pequenas, como as cerdas filtradoras) fossilizados na área, e também por sua dieta filtradora dispensar um aparelho bucal rígido e resistente. Para reconstruir o animal com um palpite seguro, o modelo retrata um cone parecido com o de radiodontes Hurdiidae, família do Aegirocassis.

Este enorme e antigo invertebrado não só oferece um show visual com sua aparência incomum, mas também informações preciosas sobre os Radiodonta (e também para os artrópodes, mas essa já é outra história).

Porcelana fria, escala 1:7.